A porta estava aberta, como era suposto que estivesse. Por isso entrei. O ambiente lá dentro era o que seria de esperar dum lugar daqueles. Fumo, gritos, música alta de pianola, risos de mulheres. Parei à porta, olhando nos olhos cada um dos homens de tez bronzeada até à marca do chapéu. Devolveram-me os olhares, um a um, todos frios. Não conhecia nenhum daqueles rostos rudes. E nenhum dos donos desses rostos conhecia o meu. Por isso passei ao balcão, fazendo tilintar as esporas sob uma chuva de olhares suspeitosos. O balcão estava vazio em toda a sua extensão, só num canto dois ou três bebedores solitários conversavam com o taberneiro. Conversas interrompidas sempre que alguém pedia alguma coisa, e retomadas mais tarde no ponto exacto do corte, quando o taberneiro regressava de trapo em riste a puxar o brilho a um copo, a um cinzeiro, a um prato de estanho. Encostei-me à velha madeira, maltratada por anos de facadas. O homem do balcão interrompeu mais uma vez a conversa para vir ter comigo, uma amostra de sorriso dançando-lhe nos lábios. Pedi uma bebida forte em tom indiferente e saquei do tabaco e do pacote de mortalhas. O cigarro estava feito quando a bebida chegou. Acendi um fósforo no rebordo do balcão, chamuscado por décadas de fósforos acendidos ali, e dei fogo à ponta do cigarro. Engoli a bebida de um trago. Aquilo queimou-me cada célula em que tocou, da ponta da língua até ao estômago e mais além, como se tivesse engolido o fósforo aceso, ou o cigarro. Era boa, a bebida. Pedi outra.
- Olá, forasteiro. - a voz dulcíssima feriu-me os ouvidos como uma lâmina de cristal. Olhei a fonte dessa voz e a minha própria voz caiu ao chão. Uma mulher olhava-me com um sorriso divertido nos olhos. Uma mulher? Não! Um fragmento intocado da beleza primordial que tivesse estado escondido num sítio ignorado e puro ao longo das eras. Uma colecção de átomos em que cada um deles contava e era importante e era perfeito e estava no lugar geometricamente preciso. Uma obra-prima. Um hino à natureza.
Não podia desviar os olhos daquele rosto. Não podia mesmo.
Nem notei que me tinham trazido a bebida. Nem notei que o cigarro se queimava sozinho entre os meus dedos.
Ela riu-se - Não me paga uma bebida? - fazendo tilintar pulseiras.
Anos de aprendizagem das conveniências sociais ensinavam-me que era preciso responder. Mas eu não encontrava a voz em parte alguma.
Só quando ela inclinou a cabeça para o lado num jeito travesso consegui largar uma espécie de grunhido inarticulado. Só quando passou as mãos pelo cabelo ondulado consegui limpar a garganta. Só quando um suspiro vagamente impaciente me assustou consegui dizer numa voz rouca:
- C-claro.
Sentia-me embaraçado, absurdamente culpado de descortesia. Pedi-lhe a bebida, mais por gestos que por palavras, evitando olhá-la. Mas via-a, mesmo com os olhos fitos na direcção oposta. Era como se a sua silhueta se me tivesse gravado na retina. Ou ficado impressa no cérebro.
Ou como se uma porta que eu desconhecia se tivesse aberto num rompante, e por trás dela houvesse uma luz furiosa.
- Chamo-me Sally.
Aquela voz de novo! Olhei-a bem nos olhos, não pude evitá-lo. Uns olhos azuis, profundos como o céu do deserto lá fora, quase hipnóticos, que brilhavam como duas estrelas vorazes.
E eu era um planeta em torno deles, preso no fascínio da luz.
Talvez se tenha passado algum tempo lá fora, não sei. Eu estava preso dos olhos dela.
- Gosto de saber os nomes das pessoas que me pagam bebidas...
De novo, a voz. Mas agora vinha de certo modo gasta, carregada com uma coisa qualquer diferente. Mas o quê? Decepção? Aborrecimento? Os olhos olhavam em frente, para o espelho por detrás das garrafas do outro lado do balcão, para mim no espelho. E não me transmitiam nenhuma mensagem.
Balbuciei qualquer coisa de indistinto e amaldiçoei todo aquele descontrole. A bebida viajava entre os meus dedos, totalmente esquecida, gorgolejando baixinho como que a chamar por mim. Olhei para dentro do copo e vi-me reflectido no vidro. Apenas uma sombra sem textura nem interesse. Seria assim que ela me via lá no espelho?
Bebi a bebida num trago. Respirei fundo. Passei a mão livre pela cara. Pousei o copo no balcão. Limpei as mãos às calças e virei-me para ela, esforçando-me por manter a voz firme. Estendi-lhe a mão.
- Desculpe. Não sei o que me deu. O meu nome é Alberto, Alberto Gomes Liemann.